08/03/2025, atualizado em 08/03/2025
A Inteligência Artificial tem sido um dos temas mais debatidos no mundo do design. Recentemente, realizei uma pesquisa entre meus colegas estudantes de Design Gráfico para compreender a percepção geral sobre essa tecnologia. Os resultados não me surpreenderam: a maioria se posicionou contra a IA, muitos com opiniões bastante fortes. Entre as discussões, houve até críticas a um anúncio da Claro que utilizou IA em sua produção. Diante desse cenário, decidi compartilhar minha perspectiva sobre o assunto, não para convencer ninguém, mas para refletir sobre o papel da tecnologia em nossa profissão e sobre como podemos lidar com essa transformação inevitável.
Venho de uma época em que o design era feito à mão, utilizando pranchetas, réguas, esquadros e canetas nanquim. Nasci no final do pós-modernismo e me desenvolvi profissionalmente dentro do movimento contemporâneo. Ao longo da minha carreira, enfrentei várias "ameaças" tecnológicas: os computadores, os softwares de design, a chegada da Web 1.0 e 2.0 e, agora, a mais impactante de todas, a Inteligência Artificial. Enquanto alguns profissionais resistiram a essas mudanças, eu escolhi me adaptar, pois percebi que a única forma de sobreviver era evoluir junto com a tecnologia.
A famosa frase de Michael Corleone em O Poderoso Chefão, Parte II diz:
"Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos mais perto ainda."
Esse conceito se aplica perfeitamente à IA hoje. Para muitos, ela representa uma ameaça iminente, mas ignorá-la não fará com que desapareça. Pelo contrário, quanto mais nos afastamos dela, menos controle teremos sobre sua influência. Por isso, minha estratégia é me aproximar dessa tecnologia, estudá-la e compreender tanto seu potencial quanto seus riscos.
O entusiasmo que demonstro em relação à IA não significa aceitação cega, mas sim o reconhecimento de sua inevitabilidade. A história já mostrou que, quando uma inovação surge, não há como detê-la. O que podemos, e devemos, fazer é aprender a utilizá-la a nosso favor e lutar por regulamentações que protejam os profissionais da área. Afinal, adaptar-se não significa submeter-se.
Ao mesmo tempo, reconheço que a resistência também desempenha um papel importante nos processos de transformação. O movimento Arts & Crafts, por exemplo, surgiu como um protesto contra a mecanização da arte, mas acabou influenciando a Bauhaus, que redefiniu os princípios do design moderno. Em outras palavras, o confronto entre tradição e inovação não precisa ser um jogo de soma zero. Muitas vezes, é justamente a tensão entre essas duas forças que impulsiona o progresso.
Se analisarmos a história, veremos que essa dança entre inovação e resistência existe desde os tempos pré-históricos. E, como em qualquer dança, aqueles que não acompanham o ritmo acabam ficando para trás. A questão não é se a tecnologia irá avançar, isso certamente acontecerá, mas sim como escolhemos nos relacionar com ela. Diante disso, a melhor estratégia não é sair do compasso, mas aprender os novos passos dessa coreografia em constante evolução.
Por Cícero Lopes Jornalista ilustrador e designer gráfico