20/12/2025, atualizado em 20/12/2025
Recentemente vivi uma situação bastante reveladora na CL Graphic Design & Illustration. Um autor me procurou interessado em produzir dez ilustrações para um livro infantil geradas com Inteligência Artificial. Ele buscava rapidez, eu buscava precisão. Respondi enviando um questionário detalhado, e o resultado foi silêncio total por parte do cliente. Muitos acreditam que a IA eliminou a necessidade de planejamento, mas a realidade é exatamente o oposto, sem um roteiro humano, a tecnologia apenas produz cenas genéricas e sem alma.
A IA é uma máquina poderosa, mas não possui intuição. Sem uma sinopse completa não há como definir o DNA da obra. Um "coelho na floresta" pode ser uma história de suspense sombrio ou uma fábula vibrante, o briefing é que define essa atmosfera.
Além disso, é preciso desfazer o mito de que "o tamanho não importa". Uma página simples exige um ponto focal claro, enquanto uma página dupla precisa sobreviver à dobra central e ainda conduzir o olhar do leitor de forma fluida. Trata-se de uma composição muito mais complexa, algo que não pode ser resolvido simplesmente "esticando" a imagem.
Outro ponto crucial foi a distinção entre as ilustrações internas e a capa do livro. As ilustrações internas servem à narrativa, mas a capa serve ao mercado. Ela funciona como um cartaz publicitário que precisa vender o livro em poucos segundos.
Ainda no campo técnico, questões de formato, seja para impressão ou para uso digital, são fundamentais. Explicar a diferença entre RGB e CMYK, em 300 DPI, pode soar como grego para o cliente, mas é isso que garante qualidade. Gerar uma imagem em baixa resolução para a internet e depois tentar imprimi-la resulta em um desastre pixelizado. A IA precisa ser orientada desde o início a trabalhar no formato correto para evitar perda total de qualidade.
O famoso "me surpreenda" é uma das maiores armadilhas do design. Sem definir um estilo, seja cartoon, realista ou aquarela, e uma paleta de cores, estamos trabalhando apenas com sorte. O briefing funciona como uma vacina contra retrabalho. Conhecer o orçamento e o prazo também me permite atuar como consultor. Se o orçamento é limitado para dez ilustrações realistas, posso sugerir um estilo cartoon de alta qualidade ou concentrar o trabalho em menos imagens, mas com maior impacto.
Um dos pontos mais sensíveis, e ignorado pelo cliente, foi o uso futuro dos personagens. Uma coisa é ilustrar um livro, outra bem diferente é transformar esses personagens em brinquedos, canecas ou até uma série animada, o chamado merchandising.
O licenciamento de uso protege tanto o ilustrador quanto o autor, garantindo que, se o livro se tornar um grande sucesso, a compensação seja justa para quem criou aquela identidade visual.
Na era da IA, meu trabalho evoluiu para algo próximo ao de um diretor de arte e curador de tecnologia. As respostas do briefing são os dados que orientam as ferramentas profissionais de alta performance que utilizamos. Sem esse roteiro, a IA é apenas uma máquina sem direção.
O silêncio desse cliente acabou sendo uma perda para o próprio projeto dele. Clareza no início economiza tempo, reduz custos e garante a materialização fiel de uma visão, transformando uma ideia abstrata em um produto concreto e de alta qualidade.
Cícero Lopes
Jornalista ilustrador e designer gráfico