03/07/2026, atualizado em 03/07/2026
Uma reflexão sobre as mudanças na indústria criativa, o impacto das demissões e o valor do desenho tradicional em tempos de automação.
Nos últimos dias, a Disney anunciou uma rodada de reestruturação que afetou várias áreas da companhia, e reportagens indicam que a Marvel Studios esteve entre as divisões impactadas, com cortes em equipes ligadas a efeitos visuais e desenvolvimento visual. Essas notícias reacenderam um debate importante: até que ponto a automação e as ferramentas de Inteligência Artificial vão transformar o trabalho criativo?
A verdade é que a tecnologia já está alterando os fluxos de produção. Ferramentas de IA aceleram testes, automatizam tarefas repetitivas e ampliam possibilidades de criação. Ao mesmo tempo, não há base pública sólida para afirmar que um único profissional, usando IA, substitua em larga escala centenas de artistas de forma direta e imediata. O que existe, na prática, é uma combinação de pressão econômica, busca por eficiência e mudanças no modelo de negócios das grandes empresas.
"Demissões nunca são apenas números: elas atingem famílias, trajetórias e sonhos."
Sinto profunda tristeza pelas pessoas afetadas por esse tipo de decisão. Demissões nunca são apenas números: elas atingem famílias, trajetórias e sonhos. Ainda assim, para quem acompanha o setor, esse movimento já era uma possibilidade dentro da lógica das grandes corporações, que ajustam equipes conforme resultados financeiros, audiência e estratégia de mercado.
Para nós, profissionais da criação, a pergunta central é outra: como responder a esse cenário sem abandonar o nosso ofício?
Minha experiência mostra dois pontos importantes. Primeiro, o mercado criativo sempre foi competitivo, e hoje a pressão por preços baixos e produtividade rápida tornou esse ambiente ainda mais difícil. Segundo, existe também uma barreira geracional real. Profissionais mais experientes muitas vezes enfrentam preconceitos, dificuldades de reposicionamento e exigências de adaptação que nem sempre são tratadas com justiça.
Isso não significa que a experiência perdeu valor. Significa apenas que o contexto mudou. E, diante disso, decidi seguir um caminho que combina tecnologia e tradição.
"O contato com papel e lápis estimula coordenação motora, concentração, relaxamento e uma relação mais direta com o traço."
Continuo usando recursos digitais e ferramentas de IA como apoio no processo criativo, mas redirecionei parte importante da minha atuação para o ensino do desenho tradicional em aulas presenciais. O contato com papel e lápis estimula coordenação motora, concentração, relaxamento e uma relação mais direta com o traço. Além disso, o ambiente presencial cria algo que a tecnologia não substitui com facilidade: presença humana, troca e aprendizado compartilhado.
Não vejo isso como uma rejeição ao novo. Pelo contrário. Vejo como uma escolha estratégica. Aprender a usar novas ferramentas é indispensável, mas abandonar o repertório manual e autoral seria um erro. O desenho tradicional continua sendo uma base poderosa para formação, expressão e desenvolvimento criativo.
Para quem está em dúvida entre resistir ou aderir à tecnologia, eu deixo três recomendações simples:
Aprenda as ferramentas novas. A IA já faz parte da rotina criativa e profissional.
Preserve seu repertório autoral. Estilo próprio, técnica e intenção continuam sendo diferenciais.
Valorize o que é humano. Ensino, presença, curadoria e processo criativo têm valor real no mercado.
A transição atual pode ser dura, mas também abre espaço para reinvenção. Em vez de tratar tecnologia e desenho tradicional como inimigos, talvez o caminho mais inteligente seja entender como eles podem coexistir.
No meu caso, escolhi continuar desenhando e ensinar outras pessoas a desenhar. Não como recusa ao futuro, mas como afirmação de algo que considero essencial: o valor do gesto manual, da experiência acumulada e da criação feita com consciência.
Por Cícero Lopes Jornalista ilustrador e designer gráfico