16/07/2026, atualizado em 16/07/2026
O choque entre o susto de um cliente com a inflação e o desabafo de um jovem empreendedor revela os limites do desgaste no atendimento moderno.
Sou um cliente fiel quando percebo que o serviço condiz com o valor cobrado, ou seja, quando há equilíbrio. Há cerca de dois anos, lavo meu carro no mesmo estabelecimento. Para chegar até ele, que fica distante de onde moro, testei os mais próximos e fui me distanciando até encontrá-lo. O local não é perfeito e se assemelha a qualquer outro, mas tem um diferencial crucial: o proprietário está sempre presente e, muitas vezes, coloca a mão na massa. Ele demonstra ser alguém que não tem medo do trabalho; é também corretor de imóveis, formado em educação física, honesto e extremamente batalhador.
Por conta de compromissos profissionais, fiquei sem tempo de lavar o carro em duas ocasiões, gerando um intervalo de seis meses entre as visitas. Nesse período, o preço da lavagem americana sofreu reajustes que, somados em um ano, atingiram cerca de 71,43%, sendo 28,57% no primeiro aumento e 33,33% no segundo. Não considero o valor final abusivo. Pelo contrário, está condizente com a realidade atual, na qual o verdadeiro custo de vida é medido pelo trabalhador no supermercado, nas contas de luz, de água e nos serviços básicos.
"o preço é importante, mas não lidera minhas prioridades."
Ontem, ao perguntar o preço, não consegui evitar o susto e comentei de forma impulsiva: "Aumentou bastante desde a última vez". Foi um comentário infeliz. O proprietário irritou-se, interpretando que eu achava o serviço caro, nivelando-me aos clientes que não valorizam o seu esforço. Mas há uma grande diferença entre mim e a maioria: o preço é importante, mas não lidera minhas prioridades. Tanto que, mesmo com o susto inicial, contratei o serviço.
Enquanto aguardava, observei o local. O espaço passava por reformas, exibindo inclusive uma nova identidade visual. Percebi claramente que a arte havia sido produzida com auxílio de inteligência artificial por um amador. Esteticamente, o resultado estava muito bom, mesmo não sendo profissional. Usar amador e profissional no mesmo contexto pode parecer crítica, mas não é. Afinal, a palavra amador tem origem no latim "amatore", que significa aquele que ama.
Perguntei ao proprietário, que ainda guardava certo ressentimento, se a identidade visual fora feita por ele usando IA. Ele confirmou. Isso em nada mudou minha admiração por sua postura; ele continuava sendo o tipo de empreendedor esforçado, que não espera as condições perfeitas para agir: ele simplesmente faz.
A conversa sobre o valor do serviço evoluiu. Tentei explicar que o meu susto se deu apenas pela falta de preparação para o novo preço, mas que eu compreendia os motivos do reajuste. Ele, contudo, parecia focado em desabafar sobre a clientela, reclamando que ninguém reconhecia os custos de manter aquela estrutura física.
O empresário estava tão concentrado em sua posição de vítima que não hesitou em criticar todos os clientes para um deles. Percebendo sua exaltação e sentindo-me desconfortável, decidi ser direto: "Você está dizendo tudo isso porque me assustei com o aumento no valor do serviço". Trazer o diálogo do plano genérico para o pessoal forçou-o a encarar o fato de que eu era o alvo de suas queixas naquele momento, personificando as frustrações que ele acumulava.
Diante disso, ele recuou. Justificou compreender que eu estava há bastante tempo sem frequentar o local e acalmou-se. Foi quando compartilhei que sou designer gráfico e que a IA reduziu drasticamente o volume dos meus trabalhos, já que hoje qualquer pessoa consegue produzir obras visuais. Expliquei que utilizo a IA como ferramenta, e seria apenas mais um frente a milhões de usuários profissionais e amadores, mas optei pelo caminho inverso, oferecendo aulas de desenho à moda antiga. Em momento algum critiquei meus ex-clientes, a ferramenta ou a decisão dele de usá-la.
"...a IA reduziu drasticamente o volume dos meus trabalhos, já que hoje qualquer pessoa consegue produzir obras visuais."
Essa perspectiva parecia ser o que faltava para desarmá-lo. Ao perceber que eu também enfrentava as pressões e transformações do mercado no meu próprio ofício, sua postura defensiva se desfez. O constrangimento deu lugar à empatia; ele finalmente desviou o foco das próprias queixas para compreender que estamos todos expostos às mesmas vulnerabilidades sociais e econômicas.
Inicialmente, por mais que tentasse, não pude evitar o susto com o preço e acabei rotulado como um cliente intolerante o que é compreensível dada a carga emocional que levou aquele jovem a este julgamento. Minha situação não é muito diferente e eu poderia rotulá-lo da mesma forma por usar IA; no entanto, sei o quanto é difícil o caminho da reinvenção e como é fácil nos perdermos no ressentimento quando o mercado muda debaixo dos nossos pés. Espero que esse jovem empreendedor compreenda essa mesma dinâmica: o cliente não é o inimigo, e o caminho para a sobrevivência do negócio nunca será o ressentimento.
Continuo admirando sua dedicação e seguirei lavando meu carro ali. Quero que ele prospere. Meu dinheiro é apenas parte desse processo, pois acredito que o país precisa, acima de tudo, do sucesso de pessoas honestas e trabalhadoras como ele.
Por Cícero Lopes Jornalista ilustrador e designer gráfico